domingo, 4 de janeiro de 2009

Relações Humanas, é tema no RC Recife-Brum




A última reunião de 2008, terça-feira (30), realizada no Circulo Militar do Recife, o Rotary Clube Recife-Brum teve a honra de ouvir a palestra do companheiro Dr. Carlos Eduardo Vasconcelos, que falou sobre o tema Relações Humanas. Na ocasião, assim como na penúltima reunião, o vice-presidente, Dr. Pedro Gaudêncio, assumiu a mesa (uma vez que o presidente do clube, Dr. Carlos Alberto Borges, está viajando). Mesmo com a ausência do executivo, o RC Recife-Brum recebeu um reforço ilustre. Na oportunidade, os companheiros do Brum, receberam a visita do governador do Distrito 4500, Dr. Eduardo Queiroz, que ao término da palestra parabenizou, Dr. Carlos Eduardo e todos os companheiros presentes.

Abaixo o texto na íntegra, de Dr. Carlos Eduardo:


RELAÇÕES HUMANAS – O PROBLEMA DA COMUNICAÇÃO.


Um indivíduo vivo não tem como deixar de comportar-se. Comportamento é comunicação. Toda comunicação é interacional, é troca de mensagens. Por mais que um indivíduo se esforce é-lhe impossível não comunicar. Atividade e inatividade são comunicações. Portanto, palavra ou silêncio é comunicação. Possuem valor de mensagem e, portanto, influenciam outros e estes outros não podem não responder a essas comunicações e, portanto, também estão comunicando.


A mulher que, numa mesa de bar, prefere ficar de costas para os demais freqüentadores, pode estar comunicando que não quer falar com ninguém. No entanto, consoante a sua indumentária e gestos, pode estar comunicando algo mais.

Enfim, a comunicação é verbal (digital) ou não-verbal (analógica). Ademais, nem sempre a comunicação acontece de modo intencional, consciente ou eficaz; mesmo assim ela é relacional e, portanto, circular ou recursiva. A inevitabilidade da comunicação significa que a presença de pelo menos duas pessoas em um ambiente constitui uma relação interpessoal Enfim, relações humanas são interações e interações são sistemas que, sendo sistemas vivos (biológicos, psicológicos e comunicativos), são abertos.

O desenvolvimento da comunicação construtiva habilita os grupos envolvidos à prática de negociações eficazes, gerindo os conflitos de modo sistêmico. Nesta quadra do processo civilizatório em que os trabalhos em equipe se tornam mais necessários à expansão do conhecimento e à obtenção de resultados positivos, uma comunicação construtiva torna-se cada vez mais necessária. Essa necessidade avança à medida que os modelos verticais de liderança são substituídos por modelos horizontais, baseados em equipes.


Eis um resumo dos Preceitos de Comunicação Construtiva:


1) Conotação positiva: A comunicação construtiva começa com o acolhimento do outro através de uma linguagem apreciativa, estimulante. Apreciar a conversação supõe o reconhecimento da inevitabilidade e da necessidade da diferença que o outro faz. Conote positivamente e, caso necessário, faça perguntas para permitir ao interlocutor uma abertura para outros enfoques ou formas de verbalização. Esse reconhecimento é o fundamento da não-violência. Gera empatia, embora não implique, necessariamente, em concordância.


2) Escuta ativa: As pessoas precisam dizer o que sentem. A melhor comunicação é aquela que reconhece a necessidade de o outro se expressar. Em vez de conselhos e sermões, escute, sempre, com toda atenção o que está sendo falado e sentido pelo outro. Aconselhamento, salvo em situações muito especiais, pois o conselho bloqueia as necessidades de expressão, reconhecimento e emancipação do aconselhado. O facilitador ou mediador deve estar consciente de que a necessidade primeira do mediando é a de expressar as suas razões e sentimentos. Somente pessoas que se sentem verdadeiramente escutadas estarão dispostas a escutar.


3) Perguntas sem julgamento: Primeiro escute, depois pergunte. Em vez de aconselhar, pergunte. Perguntas apropriadas apóiam e complementam o processo de escuta e reconhecimento. A pergunta nos protege da pressa em julgar o outro ou da nossa mania de dar conselhos. Através da pergunta você ajuda a outra pessoa a narrar, a esclarecer, contextualizar e a melhor interpretar o próprio comportamento. Em qualquer circunstância recomenda-se que essas perguntas tenham caráter circular, qual seja, vinculem-se, concretamente, às respectivas respostas, estabelecendo uma circularidade com as falas que as retro alimentam.

4) Reciprocidade discursiva: Fale claramente, mas respeite o igual direito do outro de falar. Após escutar ativamente o que o outro tem a dizer, estabeleça, na mediação ou na negociação direta, uma comunicação em que ambos respeitam o direito do outro de se expressar. O mediador deve obter, logo no início da mediação, a concordância de ambas as partes com a regra da não interferência na fala do outro. Equilibrar o direito de expressão contribui para equilibrar o poder. Comunicação construtiva é eqüitativa, circular, no sentido de algo co-construído.


5) Mensagem como opinião pessoal: Quando fizer alguma observação sobre o comportamento de alguém use a primeira pessoa: Exemplo: "em minha opinião isto poderia ter sido feito da seguinte forma..." Esse modo de comunicação evita que se fale pelo outro. O mediador deve orientar os mediandos a utilizarem a primeira pessoa, interrompendo-as quando assim não procederem. Especialmente na fase inicial de um processo de mediação, para que os ânimos exaltados não se expressem com acusações pessoais, mas expressando as impressões sobre como cada um dos interessados sente e percebe o problema. Nesse sentido, nunca se deve dizer "você não devia ter feito isso ou aquilo". Fale por si, nunca pelo outro. Diga: "eu penso que isto poderia ter sido feito da seguinte forma...".


6) Assertividade: Não se deve ter medo de divergência. Ser assertivo é ter clareza. Quem não sabe dizer não também não sabe dizer sim. A falta de assertividade contribui para o paradoxo da violência, pois excesso de omissão, da acomodação, se converte em excesso de agressão. Portanto, o mediador de conflitos deve ser assertivo e estar atento para ajudar os mediandos a se conduzirem assertivamente. Assertividade é boa-fé, sem o que as pessoas não estarão auto-afirmadas para negociar. Quando estamos auto-afirmados, assertivos, somos capazes de receber um não com naturalidade.

7) Priorização do elemento relacional: Separe o problema pessoal do problema material. Quando o conflito for pessoal e, ao mesmo tempo, material, tenha em conta que a necessidade primeira das pessoas envolvidas é restaurar a relação pessoal. Portanto, primeiro tenha em conta o problema pessoal (a relação propriamente dita). Somente após, restaurada a relação ou superada a animosidade, as pessoas estarão aptas a cuidar do problema material (os bens e os direitos envolvidos). Nos casos em que o problema emocional for muito complexo será recomendável que o mediador se faça acompanhar de co-mediador com formação em psicologia. Isto é mais comum nos conflitos familiares entre casais.


8) Reconhecimento da diferença: A mente humana, sob a tensão de disputa, tende a polarizar, a optar e fixar-se numa posição. Cada um, no seu contexto cultural e existencial, tende a ordenar os valores segundo hierarquias variadas, que supostamente contemplam as suas necessidades de auto-afirmação. Toda uma preparação será necessária até que o mediando se sinta em condições de sair da sua posição e se imagine no lugar do outro. Trata-se de um exercício que o mediador poderá sugerir aos mediandos, pois o contato com essa outra realidade é uma experiência de sensibilização e de integração.

9) Não reação: Ao sofrer uma acusação injusta, não reaja. Reformule. Para isto dê um tempo. A simples reação é dependência. Não perca o direito ao protagonismo, à sua oportunidade de transformar aquela interação. A prática transformadora da interação agressiva é conhecida como reformulação. Pela reformulação somos capazes de romper com o jogo ofensa-reação. A reformulação pode ser adotada através da paráfrase (repetição da frase, com nossas próprias palavras) a frase agressiva do outro ou através de pergunta.


10) Não ameaça: Ameaça é jogo de poder coercitivo. Ao ameaçar você está induzindo a outra parte a provar que é mais poderosa. Em vez de uma solução de ganhos mútuos (ganha-ganha), fica-se restrito a um jogo de ganha-perde ou de perde-perde. A ameaça conduz o conflito na direção do confronto, da violência. A melhor atitude para evitar que a ameaça numa reunião de mediação, é a conscientização prévia dos mediandos sobre a prática da escuta ativa, da igualdade de fala, e da linguagem na primeira pessoa. O preceito da não ameaça não exclui a possibilidade de se perguntar ao mediando se ele admite a existência de riscos ao proceder daquela forma. Este questionamento poderá ajudar na identificação de dados de realidade. Convém lembrar que dados de realidade são os padrões éticos, técnicos, econômicos ou jurídicos que devem ser levados em consideração na tomada de decisões.

Enfim, amigos e companheiros, este é um breve resumo de tema cativante e, acima de tudo, vital, objeto de um dos Capítulos do Livro que, com imensa alegria, publiquei este ano, "Mediação de Conflitos e Práticas Restaurativas".


Como dizia Mahatma Gandhi, "Cuide dos meios que o fim cuidará de si mesmo".

Carlos Eduardo de Vasconcelos

RC Brum, em 30 de dezembro de 2008.


Foto abaixo: Dr. Tertuliano Maranhão apresentando o palestrante;



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